CAPÍTULO 1 – GRAVIDADE ZERO
Acordar… Seus cabelos loiros estão esparramados no travesseiro. Ela dorme silente, seu corpo nu e alvo se destaca mesmo na escuridão de nosso quarto. Acordar… ainda usamos o antigo metodo de contagem de horas terrestres, nunca se adaptaram com um novo método e por mais que não vigore 24 horas ainda sim utilizam o “ante meridium” e o “post meridium”.
Não sou bom na cozinha, derrubo café na pia, queimo os dedos no fogão, e minhas torradas passam do ponto. Consegui colocar uma flor de Martelius branca em um vaso com água reciclada.
- Nicole… - Ela tem sono leve. Deposito a bandeja no seu colo e ela sorri para mim, seu corpo coberto pelo lençol branco e seus olhos verdes.
- O senhor Isaac Clarke tranzendo café na cama para mim?
- Não se acostume – deito na cama e a beijo – você nem foi e eu já estou com saudades.
- São apenas alguns meses Isaac. Apenas alguns meses Isaac.
Isaac.
Isaac.
- Isaac, está me ouvindo? – Estou na sala de manutenção da nave Ishimura. A tripulação voa ao meu redor em gravidade zero, foram todos dilacerados por alienigenas muito feios. Uso uma roupa que pesa uns duzentos quilos enquanto limpo pedaços de carne humana da fiação. Não é um bom dia.
- Alto e claro Kendra, você falando não está ajudando em nada.
- Ah um padrão no quadro de ernegia Isaac mas não estou entendendo o que destruiu a comunicação interna. Você terá que investigar isso no andar inferior.
Estamos descendo cada vez mais no coração desta nave maldita. Os corredores escuros e as batidas na lata, alguns ainda estão vivos mas estes alguns não sobreviveram por muito tempo, seus cadáveres se tornam estes monstros loucos e os que sobreviveram enlouqueceram pouco a pouco. Os corpos mutilados da tripulação que voam ao meu redor são a prova viva de que algo muito ruim aconteceu. Tenho medo, Nicole estava abordo.
- Isaac…
Meus passos ecoam nos corredores, sinto como se algo me seguisse. Minha respiração parece ser amplificada pelo capacete do trage. Eu odeio este trage. Meus passos estão cadenciados para não chamar à atenção, meu coração esta acelerado, não sinto os dedos dos pés, cansaso. Uso um Plasma Cutter, presente de um minerador que me deu um bom conselho “atire nas pernas”.
- Issac.
- Nicole, eu falei com Ruperth. Ele me disse que precisa de uma médica na ala hospitalar da Ishimura – ela me abraça, sei o quanto ela queria fazer esta viagem. Seria muito bom para seu curículo uma viagem em uma nave mineradora, as vagas eram sempre muito concorridas e Nicole estudou durante quatro anos para estar pronta para a viagem. Mexi uns pauzinhos e a coloquei na nave.
- Isaac, não sei o que dizer.
- Sabe sim.
- Te amo.
O elevador de carga geme nas entranhas mortas da Ishimura. Ouço batidas na parede ou é apenas meu coração? Há muito sangue pelo chão e isso faz o elevador ficar escorregadio. Gemidos ao longe.
O elevador para entre um andar e outro. Erro no sistema.
- Kendra, o elevador parou.
- Isaac, terá que descer o resto pela escada de emergência, mas não sei se aquelas coisas estaram lá. Tente abrir a porta – Forço a porta e consigo abrir uma fresta, entra um facho de luz de alguns monitores ao fundo. Sangue escorre pela abertura.
- Kendra, tem algo errado.
- Isaac, você – caio para trás, a garra assassina de um daqueles monstros sai pela fresta da porta e me derruba, fui salvo pelo trage que eu odeio. Atiro uma vez, duas vezes, três vezes os fachos de plasma que desmembram o braço do meu amigo feioso. O elevador treme, há mais deles no teto e eles querem me pegar, tento abrir a porta e a parte do tronco daquela cosia pende para o lado de fora, a baba começa a escorrer pelo meu trage enquanto eu tento abrir a porta, o elevador treme denovo
- Isaac, eles estão partindo…
- Os cabos! Eu sei Kendra, eu sei!
O elevador pende para um lado, os braços disformes de mais três daquelas coisas estão atravessando o teto e tentando me pegar, falta pouco para abrir a porta. Esqueiro-me na brecha empurrando o corpo asqueiroso do alienigena para trás, estou com parte do corpo para fora e parte do corpo para dentro do elevador quando sinto ele descer um pouco, ele vai me dividir ao meio se eu não sair. O alienigena que acreditei ter matado começa a tremer no chão e se levanta em um solavanco, seu grito de terror ecoa por todo o corredor e ele estende uma de suas garras enquanto a outra que fora cortada fora deixa deslizar pelo chão um líquido viscoso e fétido. Aquilo jáfoi um ser humano! Ele vai me matar, o elevador vai me matar, eles gritam em festa enquanto tentam pegar-me. Atiro, atiro, atiro, atiro, atiro, fatio meu carrasco várias vezes enquanto forço meu corpo para fora da porta, o teto do elevador está a dois palmos de distancia e sinto os braços frios dos aliengienas em meu tronco. O corpo do outro cai sobre mim, ele pesa um pouco, uso uma de suas garras como apoio fincando-a no chão e puxo me para fora.
O elevador cai no foço levando os outros monstros. Meu coração vai parar.
Respiro.
Respiro.
- Por que não se casa Isaac? Você está há quanto tempo com ela? Três anos?
- Dois Hans, dois anos.
- Ah Isaac, você vai ficar até quando enrolando a pobre garota? Ou é você ou é a carreira. Se fosse eu, eu ficaria com a carreira, é um ramo pesado mas pelo menos não é tão feio quanto você.
- Você quer que eu grude este capacete em você para o resto da sua vida, Hans?
- Calma ai latinha, só estou tentando ajudar.
- Isaac, Hans, seria muito importante se vocês fizessem o reparo o mais rápido possível.
- Hamond, estamos de cabeça para baixo aqui. Não sabe como é dificil usar a plasma-glue assim.
- Isaac, te falei para ensinar-lo direito.
- Dane-se vocês dois.
- Você anda estressado rapaz. Ah, te falei? Vou embarcar na Ishimura.
- Vai com os mineradores? Nicole quer muito ir, será bom para o currículo.
- O Rupert está fazendo as listas, devia falar com ele.
- É, quem sabe.
- Devia Isaac.
Isaac.
- Isaac! Isaac, você está bem? – Meu corpo está doendo, estou coberto de gosma e por pouco não fui dividido ao meio pelo elevador, que droga.
- Kendra, defina “bem”
- Só estou perguntando.
- Vou ter que tomar uma rota alternativa, vou descer pela escadaria e atravessar o que eles chamam de piscina. Pelo que vejo, a comunicação interna está bem abaixo deste setor.
- Isaac, parece que os cabos estão intactos mas alguem os desconectou.
- Se propósito?
- Ao que parece.
Sempre é assim, alguem fode tudo.
“Entrando em gravidade zero”
http://ab-games.org/dead_space/img_52451_dead_space4_450x360.jpg
Há corpos flutuando em toda sala. Chama-se piscina pois lá eles podiam carregar algumas rochas com mais facilidade na gravidade zero. O sangue não se espalha e o odor de podre consegue me atingir mesmo com meu capacete. Ainda há oxigênio mas a gravidade irá atrapalhar muito. Tenho que chegar até o outro lado da sala, mergulho e meu corpo afunda lentamente no ar, meu trage pesado foi feito exatamente para poder andar na gravidade zero. Algumas pedras se desprendem e estão batendo nas paredes da sala causando um som como se fosse um grunhido. A expressão de dor deles, as pernas e os braços mutilados. Soldados, engenheiros, mineradores; todos estão misturados na massa disforme que flutua na gravidade.
- Kendra, achei um acesso mas está bloqueado. Uma rocha acertou a porta em cheio. Preciso de uma ponte. Minha arma telecinética não consegue mover a pedra porque ela está presa.
- Isaac, tem alguns dutos de ar que levam para a parte de baixo, eles são bem estreitos no inicio mas ficam enormes. Conseguira atingir a sala da comunicação interna de lá.
- Kendra, alguma notícia da Nicole?
- Isaac, concentre-se na missão.
Eu acho que ela não tem coração.
Um duto de ar, tenho que me esgueirar por ele, meu corpo bate nas paredes, fica mais difícil com a gravidade zero. As coisas estão ficando cada vez mais escuras.
Na escuridão que se conhece o homem…
Escuro.
Escuro.
Escuro.
Prazer, ela me beija. Seu cheiro, o sabor dos seus lábios. Ela rí no meu ouvido.
- Senhor Clarke…
- Nicole, você é…
Prazer. Seu corpo é lindo e está quente. Há um programa de fertilização mas, eu prefiro à moda antiga.
- Nicole, eu te amo. Eu, vou sentir muito a sua falta.
- Bobinho, vou voltar o mais rápido que eu posso. Seis meses.
- Sim, eu sei.
- Não vai ficar distraído denovo, sei como você é. É capaz de perder um dedo com o Plasma Cutter.
Escuro…
Estou me arrastando em um duto de ar sujo, sinto o cheiro de carne podre. O chão sede e caio em uma pilha de corpos. Eles tentaram fazer o que eu estou fazendo, passar pelo duto de ar. Todos estão completamente mutilados, parece que as hélices dos ventiladores estavam funcionando.
- Kendra, achei a parte maior do duto. A coisa aqui não está nada boa.
- Você vai encontrar uma alavanca mais para frente, ela vai abrir o painel dos ventiladores e a saída de emergência. Você vai sair de cara com o quadro da comunicação interna.
Havia pedaços de gente presos as Hélices dos ventiladores. Parece que eles foram mastigados por um monstro gigante, como nas histórias infantis. A alavanca só move com a arma telecinética. Um som mexeu com toda a estrutura do duto e os ventiladores, rangendo muito, voltam a funcionar espalhando os corpos pela sala.
Nenhuma saída de ermegência abriu.
- Kendra, cadê a sua saída?
- Não estou entendendo Isaac, era para abrir uma porta aí.
- Kendra, não tem saida! Kendra, os ventiladores estão ligados e não tem saída!!? – Isso significa que eu também serei sugado e triturado pelos ventiladores. O último talvez tenha desligado as hélices quando foi sulgado e dividido ao meio.
- Isaac, tente parar as hélices!
- Com o que? Minha espinha?
Começo a não conseguir ficar em pé, se eu cair serei trucidado. As hélices tomam cada vez mais velocidade e giram e sentido contrário. Seguro-me em uma frágil estrutura.
- Isaac, atire nas hélices!
- Vai explodir tudo!
Estou sendo sugado, não conseguirei segurar por muito tempo. Não há porta de ermegência. Meu trage fará a estrutura quebrar. Eu vou morrer.
- Kendra, desliga isso! Kendra! Kendra!
- Isaac!!!
- Isaac.
- Isaac, acorda – meus olhos pesados, a noite foi boa, não devia ter bebido.
- Nicole, que horas são?
- Você está atrasado.
Corro para não perder o bonde. Tenho aulas as 09:00 e são 10:20. O bonde cruza toda a cidade em uma velocidade incrivel. Ao longe posso ver o pico da torre da igreja da Untologia. Não gosto da Nicole frequentando este lugar.
Estou sendo sugado…
Estou condenado.
A estrutura começa a ceder.
- Isaaaaac!
Vou morrer.
“entrando na gravidade zero”
Sinto meu corpo leve, os cadáveres mutilados da tripulação começam a flutuar pela sala e a se chocar com as hélices. A primeira pára e a segunda pára tambem. Alguem desligou o sistema de ar e ligou o sistema anti-gravitacional.
- Nicole?
- Isaac!? O que aconteceu? Alguem ligou o sistema anti-gravitacional e desigou os ventiladores à distância.
- Não foi você Kendra?
- Não…
- Será que…?
- Isaac, tem uma saída na parte de cima. Tente chegar até lá, vai dar em outro elevador de carga. Consegue fazer isso?
- E onde está sua saída de emergência?
Ela não respondeu.
Mais um corredor escuro. Saio do chão como se fosse uma planta. Era para eu ter checado o corredor antes, o que quer que fosse que estivesse lá teria me decapitado. Agora é tarde, ainda bem que estava vazio. O elevador fica ao fundo da sala, aperto para ele descer e novamente ele range pelo interior da Ishimura.
- Isaac, estou tendo uma leitura. É algo organico e grande indo na sua direção.
- Eu odeio este lugar.
- Isaac!! Saia daí, ele está indo na sua direção, não pegue o elevador de carga entendeu? NÃO PEGUE O ELEVADOR DE CARGA!!
Era tarde demais.
CONTINUA.......

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