29 de mar. de 2011

Silent Hill - A cidade do Silêncio - Capítulo 1

SILENT HILL – A CIDADE DO SILÊNCIO




CAPÍTULO 1  
BEM VINDO A SILENT HILL
Frio, quando os ossos gelam de veradade e podemos ver nossos rostos estampados no mármore frio. Não penso o que irão escrever no meu epitáfio, não penso o que vão escrever no meu futuro, no meu passado, no meu presente. Distinto é tudo aquilo que não me pertence. Minha história talvez já estivesse escrita nas cinzas púdicas de um mundo tão ingênuo. Solidão, dor, perdão, estar distante um pouco de sí mesmo e voltar no passado para buscar respostas. Medos.
  As grades imóveis eram a fronteira entre o lado de dentro da cela e o lado de fora. Não lembro o que eu sonhava mas eu lembro que me olhava em um espelho quando o espelho tenta me agarrar. Acordo, estou em uma cela. As grades são frias, minha cabeça doí. Sinto que é um lugar um tanto quanto sujo, mas arrumado, parece que estou aqui há algum tempo. Lavo o rosto na pia, as gotas de água descem pelo meu rosto, o barulho da água na pia ecoa por todo o corredor. A porta da cela está trancada, estou literalmente preso. Tenho vontade de gritar mas sinto como se estivesse sendo observado, como se houvesse alguem comigo na cela. Olho de baixo na cama, apenas uma folha de papel com algo escrito que não entendo bem, a letra está ilegível.
  - Tem alguem aí? – meu grito é rouco e rebate nas paredes, nas portas, nos espíritos, nas almas, nos pássaros, no ár, no mundo que eu acredito que existe mais não sei se existe de verdade. Como se alguem fosse gritar a qualquer momento, não é um silêncio comum. Minha mãe dizia que quando sentimos um silêncio assim é que um anjo está no nosso lado, um anjo triste. Estou triste, não sei porque, estou preso, não sei como vim parar aqui. Lembro-me que, que, que… Lembro-me que…
  - Santa mãe, como você veio parar aqui? – Um policial, ele é gordo e desengonçado, trás um molho de chaves um tanto quanto barulhentas na mão. Tem aparência cansada no rosto, ele abre a cela – não vejo niguem por aqui há muito tempo. 


  - Eu, eu não sei como eu cheguei aqui?
  - Vamos, saia depressa. Qual seu nome filho? 
- Aaron, Aaron Ashford. 
- Carl Earlier, Me chame apenas de Carl – ele me cumprimenta com seus dedos roliços. O distintivo está bem polido e suas botas bem engraixadas. 
  - Ah, Carl, onde eu estou? 
- O nome do lugar é Silent Hill – minha vista se turva, sinto uma vertigem repentina, Carl me apoia com o braço – você deve estar mal garoto, vamos, sente-se.
  Minha cabeça doí, Carl está fazendo café. Minhas mãos lisas, meus sapatos, calças, camisa. Como se eu tivesse saido de casa hoje com uma roupa diferente, como se eu tivesse saído de um lugar que já estivesse feito minhas raízes e agora estou distânte. Vã sensação de saudade. Vã sensação. Há uma penumbra em minha mente que não me permite saber mais detalhes sobre mim mesmo, sou Aaron Ashford e, e, e…
   - Beba, vai se sentir melhor – o café quente estava com muito pouco açucar – eu realmente não sei como você parou aqui, eu sempre venho nesta delegacia e nunca tem ninguém. Alias, eu mal saio daqui por causa deles. Você não se lembra de onde veio? 
- Deles?
  - Ah, desculpe se estou forçando, sei que está muito cansado. Alias você não parece nada bem, se quiser dormir um pouco tem um sofá lá trás com algumas cobertas. Fique à vontade, não tenho tantas visitas aqui.
- Não, não obrigado, eu tenho que sair daqui. Você disse que estou em Silent Hill não é? Como faço para sair da cidade?
  - Sair da cidade? Não acho que vai conseguir sair da cidade, mas se realmente quer tentar. Vai pegar a St. Andrews direto e virar a esquerda na Houstou Park. Aqui, uma mapa e um rádio caso precise se comunicar, vou estar na estação 19.333, não vai se perder na névoa – levanto-me ainda um pouco zonzo e caminho até a porta – espere, tome, se você precisar. 
  - Por que está me dando a sua arma? 
  - Precaução. 


   Frio, como se o inferno tivesse congelado e tudo se tornasse tão triste e tão silêncioso. Frio, como se minha alma estivesse em torno de mim e estivesse me tranquilizando e estivesse, e estivesse… Frio, o silêncio reina por completo, não é possível ouvir nada pois como um anjo triste está tudo tomado pelo caos silêncioso, Frio, não enxergo nada além de meus próprios passos. Ando pelas ruas silenciosas com medo, com temor, como se algo fosse me engolir a qualquer momento. Não há nada além de mim, não há pessoas, os carros estão abandonados, as lojas fechadas, as casas vazia, sem cachorros, gatos, carros, pessoas, nada, apenas nada e silêncio. Um lugar longíquo e branco que nada representa, nada diz, nada se faz, eu tenho medo porque não conheço o desconhecido, eu tenho medo porque algo me acompanha de perto, com olhos vermelhos e densos, pronto para me engolir. Sinto um calafrio, olho para trás.
  Nada.
  St. Andrews virando a esquerda em Houstou. 
  Nada.
  Ando pela Houstou,  lembro de alguns sonhos meus do passado, sonhava que estava na beira de uma lagoa brilhante onde pássaros voavam e crianças brincavam na outra margem, eu molhava os meus pés, eu tinha sete anos de idade. Alguns pequenos barcos com pescadores paciêntes e suas linhas brancas brilhantes. Sorrisos. Eu molhava os meus pés na límpida e fria água do lago, eu brincava na beira do lago. Uma família comia algumas frutinhas ao fundo, duas meninas pulavam corda, elas cantavam uma canção enquanto pulavam corda “Cirandinha cirandinha pula uma pula a minha, cirandinha cirandinha pula rápido esta linha” E elas brincavam, e elas brincavam.  
  O grito tomou conta. 
  Cirandinha, cirandinha. Corpos apareceram boiando na lagoa, todos saiam correndo gritando. Algo pegava fogo e um incêndio se alastrava queimando a todos. Pula uma pula a minha. Algumas pessoas pulavam na água tentando escapar, mas como tentáculos algo as agarrava e as fazia se afogarem, todos gritando, tudo ardendo.
  Ai eu acordava. 
  A placa fria dizia “Bem vindo a Silent Hill” e eu caminhava no sentido oposto deixando-a para trás. Não sei como eu cheguei aqui mas estava deixando esta cidade triste e vazia para trás. O que Carl faz aqui já que não tem ninguém para servir e proteger? Porque ele me deu a arma já que não tenho que me procupar de me proteger de ninguém?
 
                Abismo. 
  Olho para baixo. 
  Não enxergo o fundo. Um abismo profundo no meio do caminho, não há maneira de contornar, ele me bloqueia. Estou preso em silent hill. 
  - Carl, câmbio, câmbio, Carl, está me ouvindo – estática – Carl, tem um abismo no meio do caminho, você está sabendo disto? Não dá para sair da cidade por aqui, Carl tem outro caminho? Carl? 
  Nenhuma resposta, o rádio não está funcionando. Tenho que voltar para a delegacia. 
  Estática.
  O rádio começa a funcionar de novo, sinto um frio vindo das minhas costas, como se o abismo estivesse funcionando. O estática do rádio aumenta e eu vejo uma mão saindo da borda do abismo como se fosse um escalador. Fico parado, como se estivesse congelado. Ele vai surgindo lentamente da borda do abismo. É feio, o corpo está todo desforme, como uma vítima de atropelamento, sua cabeça treme fortemente e parece que o seu pescoço está quebrado, ele está gemendo. 
  - Por Deus!? O que é você – ele vem na minha direção, sua bába escorre pelo seu corpo queimando-o. É ácido – Se você não parar eu vou ter que atirar em você!  
  Ele ainda caminha em minha direção eu aponto a arma para ele, ele caminha em minha direção, eu disparo.
  Uma. 
   Duas.
  Três.
  Quatro.
  Cinco.
  Seis.
  As balas acabam, ele cai. Está tremendo no chão. Sinto a mesma sensação denovo, há mais dois se aproximando, estou sem balas, saio correndo, tropeço, caio nas latas de lixo. Pego um pedaço de madeira. 
  Como se me dissessem: “bem vindo a Silent Hill”

Um comentário:

Anônimo disse...

muito bom cara,adorei continue com esses contos.Sorte